sexta-feira, 7 de julho de 2017

A Igreja de Cristo na Idade Média

Com uma busca da localização da Una, Santa, Católica (Universal) e Apostólica Igreja de Cristo durante a Idade Média, pretendo mostrar porque creio na salvação de cristãos não-protestantes.

Cristo prometeu que as portas do inferno jamais prevaleceriam sobre sua igreja (Mt 16.18). No entanto, parece que muitos evangélicos não creem nisso. Ao afirmar que as congregações se apostataram entre os séculos IV,V, e VI , sendo o verdadeiro Evangelho resgatado apenas pelos reformadores do século XVI, ele negam o poder do Salvador e a obra do Espírito Santo ao longo da história do Cristianismo. Se assim crermos, teremos de afirmar que a igreja deixou de existir na Idade Média. Isso é simplesmente inconcebível

Para contornarem a situação, fazem um malabarismo histórico tentando achar grupos que se mantiveram fiéis á verdade bíblica, independentes dos primados de Roma e de Constantinopla. Aqui eles incluem os cátaros, paulicianos, bogomilos, etc. Tal teoria é afirmada principalmente por alguns batistas rigorosos e pentecostais Mas, numa análise histórica, esses grupos foram infinitamente piores do que os desmandos e erros acumulados pela Igreja oficial na Idade Média, não crendo no verdadeiro Deus, no verdadeiro Cristo, e na verdadeira fé. Os cátaros (ou albigenses), por exemplo, eram hereges gnósticos e dualistas, apregoando também a reencarnação! Temos, sim, alguns grupos que de fato buscavam a pureza bíblica (como os valdenses), mas estes estiveram temporalmente e geograficamente restritos.


Sabendo então que esses grupos heréticos de modo algum poderiam ser classificados como igrejas visíveis ortodoxas, podemos perguntar: Em qual (is) congregação (ões) foi pregada a verdadeira fé, administrados os sacramentos e conciliados os pecadores durante a Idade Média? A única hipótese racional causaria transtorno entre os evangélicos atuais: tais congregações pertenciam às Igrejas Católicas Romanas e Gregas. Excetuando-se os já citados grupos, era lá que os verdadeiros servos de Deus praticavam sua fé em conjunto

Na verdade, as duas grandes vertentes do Cristianismo( as igrejas católicas, ortodoxas), criamno mesmo Deus, no mesmo Cristo, e na mesma fé básica que nós, conforme será exposto a seguir:

A respeito de Deus:  Crê-se num Deus único, auto-existente, eterno, triúno, onipotente, onipresente, onisciente, misericordioso, amoroso, justo e santo

A respeito de Cristo: Sua divindade, humanidade, concepção divina, nascimento virginal, batismo por João, ministério(ensinamentos e milagres), julgamento pelos ímpios, morte expiatória, ressurreição corporal, ascenção aos céus e segunda vinda, a fim de julgar.

A respeito da fé:  A queda e a pecaminosidade do homem ; a necessidade de um Salvador; a salvação através da morte expiatória de Cristo; a ressurreição corporal e glória eterna para os fiéis; o castigo para os ímpios; a crença nos sacramentos do batismoe eucaristia.

A respeito das obras: A necessidade do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos a lei de Deus representada nos Dez Mandamentos.a frequência ao culto público; a prática da oração, das obras de piedade e caridade; a necessidade de uma vida santa e consagrada a Deus.

Em todos esses pontos, a Igreja medieval foi, pelo menos na teoria, fiel aos princípios bíblicos. Vale lembrar também que, em muitos outros pontos, havia maior liberdade de pensamento no que na ICAR tridentina (que decidiu, diante da "ameaça" protestante, rejeitar frontalmente e de uma vez por todas os ensinos dos reformadores).

Por fim, devemos nos lembrar que a salvação tem como base a fé em Cristo, em sua verdade revelada que, como podemos ver, ao menos em sua forma básica se encontrava presente na Igreja medieval  Assim sendo, os cristãos da época que fossem consagrados e que possuissem a fé universal( tal qual manifestada nos credos, no Pai Nosso e na moral cristã), passaram pelo novo nascimento e continuaram em suas igrejas de origem, e,mesmo incorrendo em certos erros, alcançaram a salvação. Como não se render ao exemplo de grandes cristãos não-protestantes, mártires, teólogos, pastores e confessores? Como não estimar Francisco de Assis, Bernardo de Claraval, Tomás de Kempis e tantos outros? Será que eles, cujas vidas ofereceram sobre o altar do Crucificado, haveriam de ser condenados ao inferno pelos erros que porventura tiveram em matéria de doutrina?

Muita coisa boa ocorreu na Igreja medieval: brilhantes obras de teologia, textos e práticas devocionais, excelentes hinos (como o belíssimo canto gregoriano), o surgimento do sistema universitário, a beleza da arquitetura eclesiástica, uma série de movimentos avivalistas (como os franciscanos, os místicos germânicos e os "Irmãos de Vida Comum) e os exemplos de vida dos já citados santos.

One of the Legend of St. Francis frescoes at Assisi
É claro que não podemos fechar os olhos para os erros desse período. Várias teorias não-bíblicas, como o purgatório, se desenvolveram então. A mariologia da época tendeu para um excesso, no qual a  doce e bendita mãe do Senhor foi colocada, por muitos, quase como uma deusa. A afirmação mantida pelas duas Igrejas Católicas de época(a Romana e a Grega) que suas respectivas instituições eram a única fonte de salvação, foi uma atitude soberba. Os sacramentos também tiveram sua pureza violada. Muitos clérigos eram corruptos, e os leigos, supersticiosos. Eram erros morais e doutrinários. Mas por acaso não existem erros morais e doutrinários (alguns graves) também no meio protestante atual? O que dizer dos excessos da teologia da prosperidade e do semipelagianismo em nosso meio? No entanto, não condenamos seus partidários ao inferno sem notar o que eles possuem de bom. Essa mesma tolerância deve ser estendida aos cristãos medievais. Talvez, na verdade, mesmo os mais ignorantes e supersticiosos deles fossem melhores do que nós. Pois, se eles compravam cartas de indulgência, era mirando a salvação eterna. Ao contrários de muitos dos nossos, que compram benefícios para esta vida.


Esse ano, nós protestantes celebraremos, com grande júbilo, os quinhentos anos da Reforma. Tenhamos em mente que esta não foi a reinvenção ou a reconstrução da Igreja do Novo Testamento, mas sim um importantíssimo avivamento através do qual camadas de poeira foram retiradas de sobre certas páginas da Bíblia. Mas lembremo-nos que o próprio Lutero olhava com o devido respeito, amor e honra para os grandes santos medievais.



quinta-feira, 4 de maio de 2017

Lex orandi, lex credenti

Existe uma frase latina de grande significado no estudo de liturgia. "Lex orandi, lex credenti". O que ela significa? "A norma da oração é a norma da crença". Ainda não entendeu? De fato, é algo um tanto desconhecido por nós protestantes brasileiros. Essa sentença expressa que a liturgia da igreja é a imagem de sua fé, e há uma influência recíproca entre ambas. E foi isso que pudemos ver d
urante a maioria da história do Cristianismo. A própria seleção dos livros do cânon do Novo Testamento foi baseada, em parte, pelo uso destes na liturgia da Igreja primitiva. Chegando aos nossos dias, temos vários exemplos: a Igreja

Ortodoxa, em sua "Divina Liturgia" revela de forma aberta os diversos nuances de sua fé(a Santíssima Trindade, a encarnação de Cristo, a natureza do sacerdócio, o papel dos santos falecidos, etc.).Muitas congregações católicas romanas mostram a grande mudança ocorrida a partir do Concílio do Vaticano II substituindo a velha "Missa Tridentina" pela "Missa de Paulo VI "(como o aumento da atuação do laicato, possibilitado, entre outros, pela tradução da missa nos vernáculos). No entanto, entre as igrejas protestantes, a situação é muito nebulosa. Ora, sabemos que em matéria de liturgia, qualquer coisa pode ser vista entre os protestantes. De um lado, o ajoelhar ao receber a santa ceia. De outro, batismos no toboágua. De um lado, pastores com togas e estolas. De outro, pastores vestidos como o Chapolin Colorado (ou o Batman). Mas não pretendo tratar de questões muito complexas. Apenas de alguns pontos comuns entre a maioria dos evangélicos, e indigestos caroços que se propagam a cada domingo em nossas igrejas. Vejamos:

Os louvores: Conforme expressado pelo escritor Franklin Ferreira em seu livro "O Credo dos Apóstolos", boa parte de  nossos hinos seriam cantados sem problemas por espíritas e mulçumanos, visto que são neutros demais em relação aos grandes dogmas da fé cristã ortodoxa. Só se fala da benção de Deus, do cuidado de Deus e outros assuntos periféricos. Ora, tais temas estão dentro do escopo da fé cristã, e podem ser utilizados, mas na medida certa. Precisamos voltar a cantar: "Santo! Santo! Santo! Nosso Deus Triúno"; "Sempre a cruz, Jesus, meu Deus, queiras recordar-me" e outros que falam da natureza de Deus, das doutrinas da criação e da redenção em Cristo.
Existe, no entanto, casos piores: hinos abertamente heréticos sendo utilizados em cultos, de modo que em muitas igrejas tradicionais e pentecostais nominalmente sérias, podemos nos sentir num culto neopentecostal, com todo o triunfalismo da teologia da prosperidade. Os crentes exigem: "Hoje o meu milagre vai chegar", "Restitui! Eu quero de volta o que é meu" entre outras bravatas. Recentemente, comentei no Facebook a respeito de um hino que nos ensina a "pagar o preço                                         " para ir para o céu. Qualquer protestante com um pouco de conhecimento teológico sabe que o principal motivo da Reforma foi a recusa de Roma em aceitar a doutrina da "salvação pela fé apenas" (sola fide).
As orações: Geralmente, nas igrejas evangélicas, as orações não são recitadas, mas espontâneas. O que, por vezes, é um tiro no pé. Em nome da "liberdade do Espírito", os dirigentes de nossos cultos permitem que verdadeiras aberrações teológicas sejam ditas por irmãos sem muito discernimento que são escolhidos para elevarem a voz da Igreja em oração. A doutrina da Trindade é totalmente bagunçada nas preces, elementos da já citada teologia da prosperidade são propagados, e por vezes as denominações dos seres espirituais da Umbanda são utilizadas.
Os sermões: Temos visto as piores porcarias serem ditas em nossos púlpitos. Certos pregadores dizem que o diabo estuprou Eva no Éden. Há aqueles que afirmam que Jesus era rico. Outros contam testemunhos como aquele das galinhas batizadas com o Espírito Santo. E também, em relação a algo que ocorreu recentemente, é incrível ver como os pentecostais babam de raiva quando uma igreja dá a oportunidade do sermão a um padre católico romano, mas não veem problema algum em cedê-lo a um pregador neo pentecostal.
A Ceia do Senhor: Temos visto grande irreverência e uma enorme pobreza litúrgica da celebração dessa sublime ordenança do Cristianismo. Muitos pastores insistem em celebrá-la com KiSuco e pão de forma de péssima qualidade. Já que esta ceia é tão importante para nós, deveríamos celebrar com um pouco mais de solenidade, talvez utilizando-se de um só pão e um só cálice na hora da consagração, orações mais elaboradas e solenes por parte dos ministros (como é o costume tradicional do Cristianismo, datado de seus primórdios), hinos mais adequados e o uso da recitação do “Pai nosso”, oração ensinada pelo próprio Senhor Jesus.
Outras partes do culto: Entre outras práticas de nossas igrejas que são um verdadeiro desserviço á expressão da verdadeira fé, temos o tal do "reteté" e outras estranhas manifestações atribuídas ao Espírito Santo. Pensando que tal expressão representa o pentecostalismo autêntico, alguns irmãos acabam virando motivo de escândalo para outros irmãos e chacota para os ímpios.

Por fim, é necessária uma revisão nos aspectos do culto público em nossas igrejas. Este dever vir, primeiramente, do coração, mas deve também ser um “culto racional”, e expressar a beleza da contemplação da majestade de Deus. Devemos mostrar quem é o verdadeiro povo de Deus, que mantém a pura fé bíblica, conforme expressada nos credos da Igreja primitiva, e renovada pelo sopro da Reforma protestante e pelos grandes avivamentos no seio do Cristianismo. Nossas liturgias devem refletir os dogmas de nossa fé, não podemos deixa-las tão desordenadas a tal ponto de que, para um observador externo, estas não tenham diferença nenhuma daquelas praticadas por seitas e igrejas apóstatas.

domingo, 16 de abril de 2017

A Páscoa cristã

Nos tempos da Antiga Aliança, a Páscoa (termo que significa passagem), celebrava a libertação da servidão no Egito. Após o banquete desta festa- um cordeiro-, o anjo destruidor passou pelos lares do Egito, destruindo todos os primogênitos. Somente os lares que tinham na porta a marca de sangue do cordeiro imolado  permaneciam incólumes. Neste admirável sacramento, o inimigo foi destruído e o povo de Deus, perdoado.
Eis que hoje tu, cristão, tal quais as portas das casas dos hebreus, tens o sangue que te protege da ira dos inimigos. Não o sangue de um cordeiro com quatro patas e lã, mas o sangue daquele a quem os sacrificios dos antigos remetiam, o sangue de Jesus Cristo.
Foi revelado aos pais a necessidade de sacrifícios sangrentos, pois o sangue representa a vida,
e toda vez que pecamos merecemos a morte, e nossa única salvação seria a morte de alguém em nosso lugar. Nas sombras da Lei do Antigo Concerto, os animais eram designados para esse fim. Mas tais sacrifícios não podiam, de modo algum, realmente expiar nossos pecados, tendo como fim temporário ser a sombra de um sacrifício maior.
A segunda pessoa da Santíssima, Consubstancial e Indivisivel Trindade, o Filho, fez-se servo por amor de nós, habitando encarnado entre os homens, participando em tudo das misérias deles, menos no pecado. Vivendo ele sem pecado, sendo ao mesmo tempo Deus e homem, tinha as credenciais para oficializar nossa redenção. Assim ele sofreu e morreu de forma cruel e atroz. Ele tornou-se então o perfeito Cordeiro de Deus, antítipo dos sacrifícios do Antigo Testamento, garantindo então a redenção de todos aqueles que crerem em seu sacrifício.
Ele estava morto. A fria morte o tocara. Foi sepultado. Ele, de fato, pagou o preço, e conseguiu nosso resgate. Mas como poderia nos garantir a vitória, se estava morto? Passou-se a sexta-feria da Paixão. E ele estava morto. Passou-se o sábado. E ele estava morto.
No domingo, então, uma maravilha suprema aconteceu. Eis aqui a nossa Páscoa, que maior vitória nos garantiu do que a dos judeus! Visto ser Cristo perfeito sacrifício, pelo poder da divindade levantou-se poderosamente dentre os mortos, ressuscitado em corpo e alma, para eternamente reinar. Ao ressurgir, qual um valente brandindo sua espada furiosamente, pôde assegurar e fazer valer o que nos conseguiu na cruz. Ao ressurgir, garantiu que, um dia, nós que crermos também ressuscitaremos, em espírito imortal e novo corpo incorruptível. Ao ressurgir, saqueou o inferno e dividiu os despojos com seus campeões.
Após esmagar ao diabo na cruz, ele esmagou a mais forte das campeãs deste, a morte, na ressurreição. A morte foi pisada e humilhada, seu reino, saqueado, e , para nós cristãos, só a máscara lhe resta.
Alegrai-vos, cristãos, porque vosso Salvador vive, exercendo para sempre o poder de sumo-sacerdote e nosso intercessor diante do justo Pai. Alegrai-vos, pois na vitória d'Ele conseguistes todas as vitórias que vos são necessárias. Alegrai-vos, pois recebereis, em lugar deste frágil corpo, sujeito a doenças e intempéries, um corpo incorruptível e glorificado, Alegrai-vos, pois vossos espíritos gozarão de eterna bem-aventurança na glória de Deus.
Alegrai-vos também, homens ímpios, pois esta é a chance que tendes de escapar ao poder atroz da morte temporal e  da morte eterna.
Alegrai-vos, todos os seres, pois a restauração da criação está por acontecer.
Hoje, celebramos ao Rei Vencedor. Á este conquistador invicto, seja o louvor, a honra, o poder, a glória e a sabedoria. Com a força de seu braço, este comandante valente submete a todos os poderes. Bem-aventurados aqueles que o seguem. Eis a Páscoa cristã, a mais sublime das festas celebradas pelo homem.

quarta-feira, 15 de março de 2017

História da música na igreja - séculos I ao VII

Com esse artigo, gostaria de iniciar uma série de textos a respeito da evolução e características da música no culto cristão, do período dos apóstolos até os nossos dias. Começaremos falando da música sacra da Igreja primitiva.

Podemos observar, pela Bíblia, que a música sempre participou do culto à Deus. No período veterotestamentário, os levitas (descendentes de Levi, filho de Jacó) eram os responsáveis pelos cânticos, que eram acompanhados por uma série de instrumentos de corda, de sopro e de percussão. O livro de Salmos tornou-se o hinário do povo de Israel por excelência.

No Novo Testamento, vemos os apóstolos cantando com Cristo. Na ocasião, havia se desenvolvido a liturgia não apenas no Templo de Jerusalém, centro máximo da adoração judaica, mas também nas sinagogas, onde o povo ouvia a proclamação da Palavra de Deus, e oferecia suas canções e orações.

Sabemos que o Cristianismo é oriundo do Judaísmo. O Salvador e os apóstolos eram judeus. Por isso, esse modo de cantar do antigo povo de Israel foi a grande influência dos hinos cristãos nos primeiros séculos. Outra fonte de influências foi a música grega. Sendo o grego a "língua internacional" da época, os livros do Novo Testamento foram escritos nessa língua. E na medida em que o Evangelho se espalhava pela Ásia, Europa e África, muitos homens e mulheres de fala grega foram acolhidos no seio da Igreja.  A música era praticamente uma ciência para os gregos, que tentaram sistematizá-la de forma racional e matemática. Dessa associação de características judaicas e gregas, desenvolveram-se as primeiras gerações de hinos cristãos.

Nesta, que foi a primeira fase da música no culto cristão, temos algumas peculiaridades. As melodias eram cantadas em uníssono e, provavelmente, sem acompanhamento instrumental (pois os instrumentos eram considerados, por vários Pais da Igreja, como "sombras da lei" ou associados ao paganismo dos gentios) e possuíam poucas variações de altura, raramente ultrapassando a oitava. Provavelmente o termo "cantochão" daí se deriva.

Temos registros dos cânticos por parte de Inácio, bispo de Antioquia. Ele introduziu o costume da "salmodia antifonal" na liturgia cristã. Essa consiste no canto intercalado entre grupos na congregação, ou entre esta e cantores "especializados".

Mesmo o intelectual pagão Plínio, o Jovem, registra os cânticos da Igreja, afirmando que os cristãos tinham o "(...) costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus"

Mas quais hinos eram cantados? Além dos Salmos, vários outros cânticos, alguns provenientes dos Evangelhos. O Magnificat (Cântico de Maria – Lc 1.46-55) e o Nunc Dimittis (Cântico de Simeão – Lc 2.29-32) são alguns deles. Aos poucos, entre os séculos II e IV outros hinos, geralmente escritos em grego, surgiram. Entre os hinos desse período, temos o "Luz bendita", até hoje entoado nas igrejas católicas gregas. Também temos as "Odes de Salomão", coleção de hinos escritos em siríaco. Alguns pais da Igreja do período, como Clemente de Alexandria e Gregório de Nazianzo também escreveram hinos.

No século IV, viveu Éfrem, o Sírio. Grande apologista da sã doutrina, escreveu muito de sua obra na forma de hinos. Por isso ficou conhecido como "a cítara do Espírito Santo".

No Ocidente, o grande teólogo e bispo Ambrósio de Milão era um amante da música. Escreveu muitos hinos, cujas traduções podem ser ouvidas até hoje em muitas igrejas, além de arranjar melodias no estilo daquelas compostas pelos primeiros cristãos. Ambrósio também compilou os primeiros hinários, e esse tipo de música ficou conhecida como "canto ambrosiano". Agostinho de Hipona, considerado o maior dos Pais da Igreja, reconfortava sua alma nos cultos da igreja de Milão, relatando o seguinte em suas célebres "Confissões":

"Quantas lágrimas verti, de profunda comoção, ao mavioso ressoar de teus hinos e cânticos em tua igreja! Aquelas vozes penetravam nos meus ouvidos e destilavam a verdade em meu coração, inflamando-o de doce piedade, enquanto corria meu pranto e eu sentia um grande bem-estar.” (Agostinho, Confissões)

A tradição atribui o célebre hino latino "Te Deum" (A Ti, ó Deus, Louvamos) à autoria conjunta de Ambrósio e Agostinho.

Enquanto isso, no Oriente, João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla, encarrega o músico da corte imperial de desenvolver músicas para as igrejas. A partir daí surgirá o "canto bizantino", até hoje entoado nas Igrejas Ortodoxas.

O auge de toda essa produção de hinos se dá com o chamado "canto gregoriano", baseado nos já citados hinos dos primeiros cristãos. Recebe este nome devido ao papel indispensável do papa Gregório Magno em sua organização Escritor de muitos hinos, como o "Audi Benigne Conditor" e o "Nocte Surgentes", Gregório compilou também um "Antifonário", com os textos das Horas Canônicas e um "Gradual", com os cânticos utilizados na liturgia da missa. Iniciou também uma "Schola Cantorum", que traria grandes desenvolvimentos a esse tipo de canto, originalmente chamado de "canto romano". Além de ser cantados em uníssono e sem acompanhamento, tinham como característica a grande frequência de passagens melismáticas.

O canto romano ou gregoriano vicejaria na Europa nos séculos seguintes, tendo se expandido, entre outros fatores, graças à tentativa de Carlos Magno de unificar a liturgia em seu vasto império. A partir de então, essa veio a se tornar a música por excelência da Igreja ocidental durante séculos.

No entanto, nesse período, a congregação tornou-se uma mera expectadora da liturgia divina. Estabelecendo-se o latim como língua litúrgica oficial (mesmo que o povo não a entendesse), o canto gregoriano se tornou prática exclusiva dos sacerdotes e de coros treinados. Somente com a Reforma Protestante do século XVI veremos a liturgia contar novamente com a participação popular. Na Igreja Católica, haveria uma série de inovações na música, que veremos em outras postagens. Mas no seio dessa instituição, a partir do século XIX, graças a obra dos religiosos do "Mosteiro de São Pedro de Solesmes", o canto gregoriano passa a ser muito mais valorizado, divulgado e estudado. Atualmente, em várias lojas e livrarias podemos encontrar cds deste estilo gravados por coros de monges de várias partes do mundo. Na opinião do Rev. João Wilson Faustini, pastor da Igreja Presbiteriana Independente (IPIB), e grande especialista em música litúrgica, o canto gregoriano “É considerado o tipo mais puro de música sacra que existe, por ser completamente diferente da música secular e estar associado só a cantos litúrgicos”.

No próximo artigo, estudaremos o desenvolvimento da música eclesiástica na Idade Média.


                                                                  APÊNDICE:
            Mas Giovani, eu vi no Youtube uma gravação de canto gregoriano em que se invoca "lúcifer". Como explicar isso?

R. Na verdade, existe a tal palavra, mas devemos entender que no contexto em que está sendo usada, não se refere ao adversário de nossas almas, e sim a nosso Senhor Jesus Cristo. Trata-se de um canto da Vigília de Sábado Santo na qual Cristo é devidamente chamado de "astro da manhã", que em latim se diz "lucifer". Sabemos que o diabo não é mais um anjo de luz, mas Cristo é por excelência um astro resplandecente brilhando como a manhã da vida eterna em nossas almas (Ml 4.2, Pv 4.18), . Por último, na Vulgata, tradução latina da Bíblia feita por Jerônimo, podemos ver que "lucifer", em outras passagens, também tem um bom sentido, como usado em II Pe 1,19 (traduzida na versão Almeida como "estrela da alva"). Assim sendo, quem atacou a ICAR, na Internet, com esse argumento, deveria estudar mais.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A importância da comunhão entre os cristãos

“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” Sl 133.1

“Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” Jo 13.34-35

    Ora, nos é notório, em todo o Novo Testamento, o amar à todos os homens. Mesmo nossos inimigos devem ser alvos de nossas intercessões e bênçãos. Assim, se segue a glória do amor de Deus: amar os próprios inimigos.

     Mas o que dizer então do amor fraterno, esse amor tão puro e forte que deve unir os filhos de Deus?

     Francisco de Sales nos ilumina a questão, ao dizer: “Meu Deus, se a boa amizade humana é tão agradavelmente amável, que não será ver a suavidade sagrada do amor recíproco dos bem-aventurados?”

     Eis como devem ser as amizades na fé, surpreendentes para o mundo. Uma amizade fundamentada na fé é verdadeira e jamais perece. Selada pelo próprio sangue de Cristo, esta relação afetiva deve se mostrar em obras, não em meras palavras. Muitas vezes temos visto o amor cristão ser reduzido a uma saudação com um sorriso no rosto, ou um abraço “instigado” pelos típicos pregadores de congressos em nossas igrejas. É óbvia a importância da cordialidade entre os cristãos, mas a comunhão deve ser mais profunda: Deve ser a mais terna comunhão de alma, a vontade de se estar ao lado do amigo, o querer-lhe bem de forma mais profunda, o ajudá-lo em suas dificuldades, o instruir-lhe e e o deixar instruir-se  por ele , na fé cristã.

     Deve haver:

    Comunhão na fé: A crença no mesmo Deus, no mesmo Cristo, na mesma fé básica. As orações recíprocas, estudos bíblicos, conversas sobre as coisas do alto, frequência ás reuniões de culto público(quando se congrega no mesmo lugar), bons conselhos e até mesmo repreensões, quando necessárias.

    Comunhão nas várias áreas da vida: O cristão, não sendo anjo, tem diversos assuntos que lhes importam para esta vida. Assim, precisam também trabalhar, estudar, pagar impostos. E estão passíveis de enfermidades, tentações e lutas. É ideal que, em todas essas áreas, os cristãos possam ajudar-se mutuamente no que for possível. Eis também, nas escolas e nas ocupações, a chance de manter comunhão com irmãos de outras tradições. Na área acadêmica, temos o ótimo exemplo da Aliança Bíblica Universitária (ABU), em meio a terrenos dominados pelo materialismo.

      Na amizade cristã, deve haver não apenas comunhão a respeito das crenças e obras de piedade, mas também, entre outros, atividades  daquilo que convém-se chamar “diversão”. É proveitoso e bom que os cristãos, especialmente os jovens, tenham atividades lúdicas, passatempos saudáveis, conversas sobre trivialidades, entre si. Uma comunhão em várias áreas. É assim que nasce uma boa amizade, como as queremos entre as ovelhas de Cristo.
   
      Devemos usar certos critérios ao escolher os amigos. Muitos deles acabam se tornando uma pedra de tropeço.. Sejamos bons para com todos aqueles que nos rodearem, e estendamos nossa amizade àqueles que, mesmo sem fé, se dão ao respeito. Mas lembremo-nos da grande importância de amizades cristãs, forjadas no fogo do zelo do Senhor.

   Assim sendo, busquemos uma comunhão mais íntima na Igreja, pautada pelo amor fraterno, respeito às diferenças, boa consciência e bom senso.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A grande dádiva dos livros


II Tm 4.13

“Quando vieres, traze a capa que deixei em
Troade , em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos”

   
       Resultado do desenvolvimento atingido pelas culturas humanas há quase seis mil anos, os livros fazem, sem dúvida, parte do mandato cultural, aquela ordem dada por Deus para que o homem dominasse, transformasse e o glorificasse através das obras que desenvolveriam.
    Estima-se que a escrita tenha surgido na Suméria, num tipo chamado "cuneiforme", há cerca de cinco mil e quinhentos anos. A partir desta época, surgiram em variados lugares, como o Egito, a China e a Índia, uma série de sistemas de escrita. Provavelmente os primeiros livros eram inventários de bens e códigos de leis. Mas logo surgiram livros com a temática sobrenatural, envolvendo deuses, espíritos, profetas e sacerdotes. Esse tipo de escrita sacra seguiu se desenvolvendo ao longo de toda a Antiguidade, e no período que se extendeu por volta de 1.400 a.C. à 100d.C., a Bíblia Sagrada foi escrita e compilada. Com sua inspiração divina, comprovada pelo teste da História, suas particularidades, sua profunda verdade moral e pelo magistério do Espírito Santo, este livro deve ser nosso único guia de fé e prática. Ela é suficiente para guiar a conduta cristã em matéria espiritual e moral.
     Tratando destes assuntos, escrita e livros, o que as Sagradas Escrituras nos ensinam sobre os tais? O grande apóstolo dos gentios nos sugere a resposta. Os bons livros devem sempre estar juntos de nós.
    Já temos visto que, de modo algum, as Escrituras nos proíbem, conforme apregoado por alguns, o conhecimento teológico, histórico, científico, racional e filosófico como formas de auxílio na interpretação da Bíblia. A letra que mata não é o conhecimento acadêmico, e sim a letra da Lei, ministério da morte, gravado em pedras II Co 3.6-8. Muitos homens de Deus ficaram conhecidos por seu conhecimento, como Daniel e seus companheiros, “doutos em conhecimento (Dn 1.4,20.) Salomão foi escritor de cânticos e provérbios. E o já citado Paulo conhecia muito da tradição judaica e a tradição e filosofia gregas, chegando a debater com filósofos no Areópago.(At 17.16-34)
    Vejamos, irmãos, a grande dádiva que nos dão os livros, a ponto de Deus revelar sua salvação à humanidade na forma destes! Quantos livro de grandes pensadores têm nos edificado. Obras  sobre cultura, ficção, história, ciência, moral e filosofia. Através das grandes obras de alguns autores não-cristãos, podemos ver que até mesmo sobre estes Deus derrama um tanto de sua verdade e um tipo de sabedoria.
    E o que dizer então da produção de obras sobre crer e obedecer, fé e obras, ortodoxia e santidade, os mistérios de Deus na humanidade e seu agir bondoso e o que Ele deseja de nós? O Cristianismo foi a maior fonte de produção literária da humanidade. Desde os chamados Pais da Igreja (pensadores cristãos dos primeiro séculos conhecidos por sua piedade, ortodoxia e publicação teológica), passando pelos monges administradores das bibliotecas medievais, e pelos reformadores (que eram homens cultos e davam ênfase ao ensino infantil e juvenil), até os apologistas e sábios que brilhantemente tratam dos assuntos sagrados em nossos dias, temos  um tesouro inesgotável. As grandes obras passam pelo crivo da História. Sob a santa fé cristã, surgiu o sistema universitário moderno. Por religiosos foi fundado o método científico. Nisso tudo vemos a importância dos bons livros.
    É óbvio que os mais sábios podem ler certas coisas que turbariam os mais fracos. É nossa missão, daqueles que  já estão na fé há um tempo, recomendar e aconselhar irmãos mais simples ou novos-convertidos sobre o que devem ler. Mas sempre devemos propagar esse hábito a outros cristãos, pela série de benefícios que daí advém, para a glória de Deus.
    Com a graça de Deus, diversas editoras cristãs passaram a  produzir material de ótima qualidade teológica, como a CPAD, a JUERP, a ECC e várias outras. É importante que os obreiros tenham hábito de leitura e o propaguem aos outros irmãos. E, como já foi dito, mesmo livros seculares  podem ser excelente fonte de benefícios.
    Dos tratados teológicos de Agostinho aos livros de  ficção de Tolkien. Das epístolas de Calvino aos grandes historiadores. Dos sermões de Lutero às alegorias de Lewis. Muita coisa está disponível para essa edificação (em vários sentidos).

    Que possamos nos utilizar do dom da leitura para edificar a nós mesmos e aos que nos rodearem.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

PAIS DA IGREJA: QUEM SÃO ELES? QUAL SUA IMPORTÂNCIA PARA NÓS?

   Nas últimas décadas, surgiu no meio evangélico um novo interesse pelos "Pais (ou Padres) da Igreja". O estudo da "Patrística" (as ideias e doutrinas por eles defendidas) e da "Patrologia" (a vida e as obras dos Pais) passa a figurar em seminários protestantes conservadores. É grande o interesse nesses homens, que foram os primeiros teólogos do Cristianismo.
   
  Por outro lado, alguns evangélicos, como os batistas fundamentalistas,  mostram-se profundamente contrariados. Para eles, esses homens afastaram a Igreja primitiva dos caminhos de Cristo e a conduziram de forma mundana, introduzindo heresias e, usando uma forma de linguagem própria destes fundamentalistas, "fundaram a Igreja Católica Apostólica Romana" (que para eles é a prostituta de Satanás).
    
    Na verdade, é possível entender porque leigos evangélicos compram essa ideia. Muitos apologetas católicos romanos afirmam aos quatro ventos que caso um protestante venha a estudar as obras dos Pais, acabará convencido de que a ICAR é o único caminho. Esses apologetas parecem desconhecer que, desde a época dos reformadores, muitos protestantes estudaram/estudam os Pais, e continuam protestantes. Embora existam, de fato, tais conversões, estas não são necessariamente regras. Muitos protestantes, inclusive, fundamentam suas doutrinas inspirados também nos Pais. Vejamos, por exemplo, citações que se aproximam do "Sola Fide" dos reformadores:

"Portanto, todos foram glorificados e engrandecidos, não por eles mesmos, nem por suas obras, nem pela justiça dos atos que praticaram, e sim por vontade dele [Deus]. Por conseguinte, nós, que por sua vontade fomos chamados em Jesus Cristo, não somos justificados por nós mesmos, nem pela nossa sabedoria, piedade ou inteligência, nem pelas obras que realizamos com pureza de coração, e sim pela fé;"(Clemente de Roma, na "Primeira Epístola aos Coríntios")

"Cristo cumpriu a promessa, nascendo da Virgem, da estirpe de Abraão, e convertendo em luminárias do mundo os que nele acreditam, e justificando os gentios com Abraão por meio da mesma fé. "Abraão creu em Iahweh, e lhe foi tido em conta de justiça." Do mesmo modo, nós somos justificados em virtude da fé em Deus, porque "o justo viverá por sua fé". A promessa de Abraão não foi feita pelo cumprimento da Leia, mas por meio da fé (...) Nós não somos justificados pela Lei, mas pela fé"(Irineu de Lião, em "Demonstração da Pregação Apostólica")

   Os primeiros Pais foram os chamados "Pais Apostólicos", pois tiveram algum contato com os apóstolos e outros dos primeiros seguidores de Cristo. Aqui se encaixam: Inácio de Antioquia, Papias de Hierápolis, Clemente de Roma, Policarpo de Esmirna e alguns documentos que também recebem esse título, como "O Pastor de Hermas"; “Didaquê (atribuída aos apóstolos)"; e a “Epístola de Pseudo-Barnabé"

   Outras gerações de teólogos foram se sucedendo. Temos então os "Pais Apologistas", no segundo século, os primeiros a tentar estabelecer uma ligação da doutrina dos apóstolos com a filosofia grega (no entanto de forma saudável, não de forma sincrética e herética, tão comuns em nossos dias). Os Apologistas podem ser considerados os primeiros filósofos cristãos. Eram influenciados pelas escolas platônicas e estóica. Considerando que "toda verdade provém de Deus, mesmo que ditas por homens ímpios", eles encontraram na cultura, literatura e filosofia grega alguns "pontos de ligação" com a verdade revelada nas Escrituras (lembram-se que o apóstolo Paulo se utilizou de tática semelhante em relação ao "Deus desconhecido?). Entre os Pais Apologistas, temos Justino de Roma e Irineu de Lião. No entanto, vale lembrar que nem todos os teólogos da época acharam essa ligação proveitosa. Um dos Pais, Tertuliano de Cartago (que criou o nome "Trindade", para designar o Deus vivo e verdadeiro), foi enfático ao rejeitar ideias helênicas : "Que ligação tem Atenas com Jerusalém? Ou a Academia com a Igreja?"

   Entre outas divisões que podemos citar, temos os "Pais antenicenos" (ou seja, aqueles que viveram no período anterior ao Concílio de Niceia), assim como os "Pais posnicenos"( que viveram a partir daí, como Atanásio de Alexandria). Os "Pais capadócios", termo aplicado aos três maiores teólogos da tradição oriental: Basílio de Cesareia, seu irmão Gregório de Nissa e seu melhor amigo, Gregório Nazianzeno. Entre outros pais de fala grega, temos João Crisóstomo, a quem é atribuída a liturgia usada até os nossos dias pela Igreja Ortodoxa Oriental. O grupo dos quatro grandes "Pais Latinos", incluía Agostinho de Hipona (sem dúvida o mais célebre), Jerônimo de Strídon, Ambrósio de Milão e Gregório Magno (o primeiro dos medievais, segundo alguns historiadores). Entre outros pais latinos, temos Cipriano de Cartago, Leão Magno, etc.

   Se, como vimos, os primeiros Pais foram aqueles que tiveram contato com os apóstolos, a delimitação de qual seria o fim do período patrístico é mais problemática. No Catolicismo Romano e na Igreja Ortodoxa Oriental, costuma-se dar ao presbítero João Damasceno (675-749) o título de “último dos pais da igreja” Por outro lado, teólogos protestantes tendem a considerar o fim do período patrístico for volta dos séculos V e VI. Tal tendência se encontra em Hans von Campenhausen, num livro sobre o assunto, e no pastor batista Marcos Granconato, em palestras sobre Patrística ministradas na Escola Charles Spurgeon.

     Para concluir o tópico, os Pais tem algumas características distintivas além da Antiguidade: foram teólogos ortodoxos (ou seja, defendiam, no básico, a fé correta), tiveram produção literária e santidade de vida (eram todos eles "homens da igreja", não meros especuladores.)

  Havia também falsos mestres nestes tempos. Taís líderes recebem a denominação de "heresiarcas". Aqui se incluem: Mani, Montano, Marcião, Ário, etc.  Vale lembrar que temos algumas características para diferenciar a verdade da heresia. Além da óbvia e primordial autoridade bíblica, a fé verdadeira sempre foi crida, ao menos na forma básica, por todos, em todas as épocas, e em todos os lugares, como diz Vicente de Lerins. As heresias são distorções estabelecidas num recorte temporal, que nunca chegam à totalidade da Igreja.

   Agora que esclarecemos quem são os Pais da Igreja, vamos analisar sua importância. Ora, estiveram cronologicamente e hierarquicamente próximos aos apóstolos. Por isso, em vários aspectos, como disse um líder católico romano, eles são "os melhores intérpretes das Escrituras". Foram esses homens aqueles que defenderam as verdades divinamente reveladas aos apóstolos no Novo Testamento. Eles criaram também uma base moral para a civilização ocidental. Sendo "homens da Igreja”, muitas vezes pagaram com a própria vida a sua confissão naquele que por nós foi crucificado (e ressuscitou!). Aqui se encaixam os já citados Policarpo, Justino e Irineu.
 
    No período patrístico, foi reconhecido o cânon do NT tal qual os cristãos verdadeiros até hoje utilizam. Doutrinas cardeais da fé, como a Trindade e a natureza da Encarnação e da Redenção, foram reconhecidas e sistematizadas nesse período, nos concílios organizados pelos Pais (especialmente o Concílio de Niceia, em 325). Assim vemos  grande importância dessas figuras na História da Igreja e das doutrinas.

    No entanto, deve ser dada uma palavra de alerta: os Pais não estão nas Sagradas Escrituras, por isso mesmo não podem ser considerados infalíveis. Muitos deles erraram, e em vários assuntos. Orígenes era universalista, Tertuliano rompeu com a comunhão da Igreja, e Agostinho foi inspirador de certas doutrinas adotadas pela ICAR, as quais são rejeitadas por nós protestantes. Por isso, é necessário certo cuidado antes de se consultar diretamente os Pais. É necessário que você tenha em mente que, apesar de ser uma chave hermenêutica importante, A patrística não é fonte de doutrinas para nós por ela própria("Sola scriptura", lembra-se?). Com cuidado, e consultando a Deus em oração, você poderá aproveitar-se destes verdadeiros tesouros literários, que inclui cartas, livros, diálogos e sermões.

   Dicas de livros: Há uma interessante coleção de textos patrísticos é a que tem sido publicada pela Paulus, uma editora católica. Mas acho ser interessante, antes de mergulhar diretamente nos Pais, a leitura de livros introdutórios. Para isso, recomendo:
 “Os Pais da Igreja”, de Hans von Campenhausen: publicado pela CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus). Nesta obra, que combina duas obras anteriormente publicadas, uma sobre os Pais Gregos e outra sobre os Pais Latinos, o autor analisa a vida e obra de muitos deles, e faz até mesmo juízos críticos.

“Redescobrindo os Pais da Igreja”, de Michael A.G. Haykin: publicado pela Editora Fiel. Um ótimo estudo introdutório, que trata de nomes como Inácio, Cipriano e Patrício (evangelizador do povo irlandês).